Pesquisa do Ifes indica que compostagem feita com lixo doméstico atende ao padrão de qualidade exigido pelos órgãos sanitários

Graças a um trabalho de pesquisa do Campus Montanha, restos de comida e outras substâncias que antes iam parar no lixo podem ser fortes aliados na agricultura. O adubo feito do resíduo doméstico atende ao padrão de qualidade exigido pelos órgãos sanitários, ajuda no combate de fungos e apresenta resultados melhores do que os produtos vendidos no mercado.

Carlos e Clara participam do projeto. Fotos: Alex Gouvêa – Estúdio Gazeta

O estudo foi realizado com substâncias encontradas na Usina de Triagem e Compostagem de Resíduos Sólidos (UTC) da cidade, que desde 2009 executa o trabalho de coleta seletiva de lixo e separação de resíduos. Após um ano e meio de pesquisa ficou comprovado que o produto está apto para a produção de mudas.

Até então, a compostagem produzida na usina era usada apenas para adubação de praças, jardins, campos de futebol e espaços públicos da cidade. No entanto, segundo os resultados da pesquisa, o produto pode ser liberado para uso em plantação. Os testes foram executados no plantio de mudas de café e pimenta do reino, e os resultados foram surpreendentes. O composto se mostrou inclusive eficiente no combate à fusariose, um fungo presente no solo que ataca mudas de pimenta.

“O teste serviu para comprovar que o composto tinha condições sanitárias para ser usado na plantação de mudas. A compostagem atende ao padrão de qualidade exigido pelos órgãos sanitários, além de oferecer uma qualidade de desenvolvimento superior às opções tradicionais como o esterco bovino, lodo de curtume e a adubação convencional”, explica o professor Waylson Zancanella, responsável pela pesquisa.

O estudo levou em consideração o impacto das mudanças climáticas nos índices químicos da compostagem. Durante um ano e meio, a equipe do Ifes analisou amostras do produto e a concentração ideal para o plantio.

“O melhor percentual que obtivemos foi nas mudas plantadas que tinham 90% de composto e 10% de terra. As que apresentavam o sistema radicular tiveram maior índice de crescimento e o diâmetro com melhor desenvolvimento, comprovando a qualidade dos nutrientes e mais rapidez na cultura dos produtos, entre 45 e 90 dias”, explica a estudante Clara Bonfim, do curso técnico em Agropecuária.

Certificação

A Prefeitura de Montanha poderá pedir a certificação do composto orgânico como produto e futuramente vender a produção. “O estudo comprova que o composto está dentro dos parâmetros aceitáveis e poderá ser utilizado na produção de alimentos. O trabalho do Ifes pode servir também de incentivo para cidades que não fazem coleta seletiva passarem a investir no processo e também na produção da compostagem orgânica”, afirma o secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Montanha, Bruno Pancieri de Lima.

A produção da compostagem é feita sem adição de produtos químicos. Funcionários da usina separam o lixo seco do úmido. A parte orgânica é deixada em uma área aberta, onde passa pelo processo natural de decomposição. Na cidade de Montanha são recolhidas 14 toneladas de lixo diários, sendo sete toneladas de material orgânico. Após passar por todo o processo, essa parte rende duas toneladas de composto orgânico pronto para virar adubo.

A descoberta de um destino mais nobre para a compostagem encheu de orgulho os funcionários da usina de tratamento de lixo. “A princípio a gente acreditava que não poderia ser usado em horta, mas o teste deu uma importância maior para o nosso trabalho. O produto pode ser usado na produção de uma alimentação saudável, substituindo o uso de veneno”, afirma Florisvaldo Brito, 65 anos, responsável pela produção da compostagem na UTC.