No Campus São Mateus, os quilombolas têm qualificação em homeopatia na agricultura familiar e multiplicadores do plantio de água

Por meio do Campus São Mateus, são realizados cursos voltados para a população quilombola. Entre as qualificações estão a de Homeopatia na Agricultura Familiar, em parceria com a Universidade Federal de Viçosa; e a de Multiplicadores no Plantio de Água, em parceria com o Campus de Alegre,  para a recuperação das nascentes.

Domingos Camilo faz parte da comunidade Angelim 1. Fotos: Alex Gouvêa – Estúdio Gazeta

A comunidade Angelim 1 é a primeira beneficiada. Ao todo, 48 famílias, todas descendentes de escravos, moram em uma área estimada de 3 mil hectares.

Segundo Luciane Serrate Pacheco, coordenadora do projeto, a ideia é trabalhar para que a comunidade assuma o controle de suas próprias ações, se tornando cada vez menos dependente do poder público. Todos os meses é realizada uma reunião para estudo do manejo sustentável do solo e da água, controle de pragas por meios naturais e segurança alimentar. O trabalho serve de piloto para atuar em outras regiões.

Existe uma dívida grande dos governos com a população afrodescendente. A partir de 2015 a ONU decretou a década dos povos afrodescendentes. Fomos aproximando os laços com a comunidade e queremos que os moradores tenham um vislumbre de toda a riqueza cultural que possuem, através do trabalho em regime de cooperação e resgate da sua autoestima”, explica Luciane.

Luciane Serrate Pacheco, coordenadora do projeto.

Bisnetas de escravos fundadores do quilombo, nascidas e criadas no local, as irmãs Claudentina Trindade e Auzerina Batista estão entre as mais velhas da comunidade e esperam que as futuras gerações tenham melhores condições de vida. “Na nossa infância os próprios pais ensinavam a gente a assinar o nome, porque não dava para ir à escola. Depois, um pouco mais adolescente, tínhamos que atravessar o Rio Grande de Itaúnas para ir e voltar até uma escola. Agora, a escola vem até a nossa porta”, comenta Auzerina, de 71 anos.

Os moradores não querem que as futuras gerações deixem o quilombo. “O único pedido que passou por gerações é não vender essa terra. Queremos que nossos filhos, netos, bisnetos fiquem por aqui. Com esses saberes que estão podendo aprender, vamos conseguir ampliar nossas fontes de renda. Até então sobrevivemos do plantio de mandioca e produção de farinha e biju”, diz Claudentina, 68, presidente da Associação de Agricultores da Comunidade Quilombola Angelim 1 (Aacqua).

Mesmo com pouco tempo, as mudanças são percebidas pelos moradores do quilombo. O agricultor Domingos Camilo aplica a homeopatia em seu pomar plantado com sementes crioulas em uma área de aproximadamente um hectare e meio. Já são quase 40 espécies de frutas, que vão fornecer sementes para o banco.

“Temos todos os recursos nas mãos, sem precisar usar veneno no plantio. Peguei uma parte do terreno que estava degradado por queimadas, e fiz trabalho de desintoxicação de solo. No passado, fomos produtores de açúcar mascavo, produtos orgânicos. Esses cursos estão nos ajudando a recuperar a nossa verdadeira identidade, que é trabalhar com a natureza, fazendo uso do que a gente tem em volta”, explica o quilombola.