Jovens e adultos voltam para a sala de aula e reescrevem suas histórias

Cerca de 45% dos jovens completam 19 anos sem terminar o ensino médio no Brasil. Uma alternativa que tem permitido que essa parcela da população volte a frequentar as salas de aula e ainda se qualifique para o mercado de trabalho é o Programa Nacional de Integração da Educação Básica com a Educação Profissional na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (Proeja), modelo adotado pelo Ifes.

O Campus Vitória iniciou a oferta de cursos para jovens e adultos em 2001, cinco anos antes da criação do Proeja, por meio do Curso de Ensino Médio para Jovens e Adultos Trabalhadores (EMJAT). Assim como o Proeja, a iniciativa é voltada para maiores de 18 anos que não concluíram o ensino médio e integra os conteúdos regulares com a educação profissionalizante. Em 2009, o Brasil tinha uma população de 57,7 milhões de pessoas com mais de 18 anos que não frequentavam a escola e não tinham o Ensino Fundamental completo.

“A educação de jovens e adultos não é uma ‘chance’ que é dada aos alunos, é a garantia de um direito que foi negado em outros momentos”, define o coordenador do curso Técnico em Guia de Turismo do Ifes, Hudson Cássio Gomes Oliveira. “Esse modelo entrega às pessoas a possibilidade de concluir seus estudos e, assim, transformar suas vidas, porque é por meio da educação é possível mudar a realidade que vivemos.”

Além do Técnico em Guia de Turismo, o Ifes de Vitória também oferece outros três cursos na modalidade Proeja, que são técnicos integrados ao ensino médio: técnico em Metalurgia, técnico em Segurança do Trabalho e Qualificação Profissional de Cadista para a Construção Civil.

O técnico em Guia de Turismo é o primeiro curso na área de serviços do Ifes e, segundo o coordenador, tem tido ótima receptividade entre os alunos e o mercado. “As disciplinas específicas, como aulas de idioma, políticas públicas e de patrimônio histórico e cultural, dialogam bem com as competências do currículo do ensino médio. Além disso, vemos que os conhecimentos trazidos por esses alunos, suas experiências de vida, a sabedoria popular, as lendas e crenças, são muito enriquecedores”, afirma Hudson que, além de coordenador, é professor das áreas de Gestão, Economia Solidária e Políticas Públicas.

Determinação

Marcos Antonio Vanderlei Barbosa. Foto: Estúdio Gazeta

Há quatro anos, Marcos Antonio Vanderlei Barbosa passava em frente ao Ifes de Vitória e imaginava que a instituição não era para ele. Com 32 anos na época, teve que abandonar os estudos em certa altura da vida para poder sustentar a família. Hoje, a história é outra e ele comemora o ingresso no curso de técnico em Metalurgia e Materiais.

Batalhando para conciliar o supletivo com a jornada em uma gráfica, onde começou bem cedo, Marcos Antonio soube do processo seletivo para os cursos de EJA do Ifes e arriscou. “Venho de uma família bem humilde e trabalho desde os 10 anos. Fui vendedor de picolé, de jornal, office boy”, lembra Marcos. “Mesmo trabalhando muito, não conseguia ter perspectiva de melhorar meu salário.”

Para ele, as pessoas entram nos cursos do Proeja do Ifes com o sonho de se formar, conseguir um bom emprego e melhorar de vida, pois muitos são trabalhadores e chefes de família, mas lá dentro conquistam muito mais do que isso. “Tenho vários amigos que, depois de passarem pelo Ifes, estão na faculdade, transformando suas vidas por meio da educação. Aqui nós descobrimos ferramentas para realizar sonhos”, afirma Marcos, que hoje é um representante dessa modalidade de ensino, com participação em importantes congressos nacionais e até internacionais.

Ao longo de sua jornada no Ifes, ele conheceu grandes exemplos de transformação, como os de pessoas de origem popular que, finalmente, puderam concluir o ensino médio e se profissionalizar. Entre as histórias ele gosta de citar a de estudantes que, por sua dedicação e seu sucesso, conseguiram trazer de volta para os bancos da escola membros de suas famílias. “Há muitos casos de pais e filhos, irmãos e irmãs cursando o Ifes porque um conseguiu entrar e abriu os horizontes para o outro.”

Hoje com 36 anos, Marcos Antonio sabe que pode ir mais longe. “Quero trabalhar na área em que me formei, mas também penso em fazer faculdade. Gostaria de cursar uma licenciatura em Geografia, para dar aulas e contribuir com o ensino de pessoas com mesmo perfil que o meu”, conta. “Uma coisa que aprendi com o Ifes é que quero sempre progredir.”