Debora Santos veio da Bahia para o Espírito Santo em busca de trabalho. Ingressou no Campus Guarapari e nunca parou de estudar. Hoje, faz mestrado e é a primeira da família com curso superior

“Um dia quero voltar e ser professora no Ifes. Não consigo imaginar que eu estaria hoje aqui se não tivesse estudado lá”. A frase de Debora Santos, 28 anos, projeta o futuro da caminhada traçada por ela nos últimos anos. Entre a adolescência pobre no interior da Bahia até o mestrado recém-iniciado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), muita coisa aconteceu na sua vida. Mas a grande virada em sua trajetória, segundo a própria acadêmica, foi sua passagem pelas salas de aula do Campus Guarapari.

Debora concluiu o ensino médio em 2005, na pequena cidade de Ituberá (BA). Sem perspectivas de dar prosseguimentos aos estudos, já que não tinha condições financeiras e não havia uma universidade pública na sua região, a baiana veio para o Espírito Santo em 2008 para trabalhar e ajudar a família, que permaneceria em sua terra natal. Trabalhou entregando panfleto e como atendente em uma loja de conveniência.

Foi então que, por intermédio de um colega, soube do processo seletivo para o Campus Guarapari, que iria abrir as portas em 2010. “Eu não sabia o que era o Ifes, não sabia o que era uma escola técnica, achei que era um concurso para um emprego e não um vestibular para estudar. Só tomei conhecimento do que era quando fui fazer a prova. Mesmo assim passei”.

Debora foi aprovada para a primeira turma do curso técnico concomitante em Administração. Foram 18 meses de estudos, completados posteriormente com uma especialização de seis meses na área de Gestão na Qualidade de Serviço, também no Ifes. Para ela, esses dois anos convivendo no campus mudaram sua vida para sempre.

“Os professores ampliaram a minha visão. Eles dão todo o aparato para o aluno saber a importância de uma boa qualificação. Quando entrei, achava que tudo que eu poderia conseguir era um emprego na área administrativa, mas com o passar do tempo fui me apegando ao mundo acadêmico. Agarrei as oportunidades, meus professores me incentivaram e, mesmo longe da família, me senti acolhida”.

Para quem sete anos antes não enxergava a possibilidade de fazer um curso superior, Debora agora se encontrava prestando vestibular para Ciências Contábeis na Ufes. Com todo o suporte de professores do Campus Guarapari, ela foi mais uma vez aprovada e, enfim, pode fazer a tão sonhada graduação. Foi a primeira da família a fazer ensino médio e agora também era a primeira a ingressar no ensino superior

“Considerei o Ifes como uma mãe para mim, fui acolhida, era bolsista então ia mais cedo e ficava até o horário da minha aula, isso me fazia ficar o dia inteiro no campus e vivenciar a instituição. Isso ampliou minha visão acadêmica, que era muito limitada”.

Com o diploma conquistado no fim de 2016, ela decidiu que queria seguir na carreira acadêmica. A opção foi tentar um mestrado na UFMG. Concorreu com 19 candidatos, a maioria da própria federal mineira. Mas isso não seria uma barreira para mais uma vitória dessa baiana, que nutre um sentimento de retribuição e agradecimento.

“Quando vejo quem eu era e onde cheguei, é uma evolução muito grande e, com certeza, só consegui por causa da base que eu tive lá no início no Ifes. Estou me qualificando para oferecer aos meus alunos o mesmo que recebi dos meus professores, um ensino de qualidade”, diz Debora, que também quer retribuir o apoio que veio de longe, a mais de 900km de distância.

“Minha família continua na Bahia e tem muito orgulho de mim. Minha mãe não estudou, mas com todo sacrifício trabalhou na roça para nos sustentar. Hoje ela vende chupe-chupe na rua e quero um dia retribuir tudo que ela um dia me deu. Eles precisam da minha ajuda, mas aceitaram abrir mão de um auxílio da minha parte hoje para que eu pudesse seguir com meus estudos, para aí sim, lá na frente, poder ajudá-los”, afirma Debora.