Projeto do campus oferece condições para que pessoas que tenham boas ideias possam transformá-las em produtos inovadores

Andar de mãos dadas com as novas tecnologias e desenvolver produtos que atendam a um mercado cada vez mais exigente é essencial para qualquer empresa, mas esse processo pode ser longo e muito caro. Ao mesmo tempo, os alunos que se envolvem com pesquisa nem sempre encontram projetos antenados com problemas atuais da sociedade. Uma iniciativa criada pelo Ifes consegue atender essas duas demandas, com o Núcleo Incubador de Empreendimentos.

O Campus Serra foi o primeiro a receber o programa, em 2008, que hoje faz parte de uma rede. A ideia é oferecer todas as condições para que pessoas que tenham boas ideias possam transformá-las em produtos inovadores. Alunos e professores do Ifes auxiliam nas pesquisas e no desenvolvimento e ainda prestam assessoria nas áreas técnicas, de gestão e até jurídica.

Emmanuel Marques Silva, coordenador do Núcleo Incubador Serra. Foto: Tati Hauer – Estúdio Gazeta

Entendemos que o caminho para que um produto saia do papel e se transforme em algo vendável é longo. Aqui nós podemos oferecer conhecimento e estrutura para que um projeto se concretize, explica o coordenador do núcleo, Emannuel Marques Silva.

As empresas são incubadas por dois anos, período que pode ser estendido por mais seis meses. Em seu percurso, cada empreendimento é “apadrinhado” por um professor do campus, que atua como consultor técnico do projeto, e os alunos se envolvem com a pesquisa. Muitos deles têm a chance de se tornarem estagiários. Ao final do processo, ela se torna uma empresa “graduada”, com certificação do Núcleo de Incubação.

“Aqui na Serra, trabalhamos com um eixo tecnológico. Então, um dos critérios é que os produtos têm que estar alinhados com as duas áreas de atuação do campus, que são automação e informática”, aponta Emannuel.

Além do aporte acadêmico, as empresas incubadas desfrutam de vários outros benefícios, entre eles a estrutura física do campus, com acesso a uma sala exclusiva, espaço de reuniões, laboratórios e estacionamento, por exemplo. Para tanto, elas pagam apenas uma taxa de aluguel e para cobrir despesas operacionais, com valores bem abaixo do que encontrariam em prédios comerciais.

Outra vantagem é a rede de relacionamentos que se cria no ambiente. “Os empreendedores interagem entre si, trocam ideias. E a incubadora, por si só, é uma grande vitrine, já que recebemos visitas de institutos de ensino e pesquisa nacionais e internacionais, o que garante visibilidade para os negócios”, afirma o coordenador.

Boas ideias

Mas o que acontece com as boas ideias de pessoas que não têm uma empresa? No núcleo, elas não se perdem. Para isso, foi criado um estágio para pessoas físicas, chamado de pré-incubação. Nele, pessoas físicas podem participar de um curso de capacitação de quatro meses. Se a ideia vingar, ela passa para a fase de empreendimento residente e passa um ano desenvolvendo seu plano de negócios, podendo utilizar a estrutura do Ifes, sem nenhum custo.

Para se tornar uma empresa incubada, que é o próximo passo, todos os projetos interessados se inscrevem por meio de edital e passam por uma seleção em três etapas: documental, elaboração de projeto e apresentação do projeto. Os melhores colocados, segundo uma banca examinadora, ganham a chance de ser incubados.

Giovani de Oliveira, da Intechno. Foto: Tati Hauer

A Intechno atua no mercado didático, mas o produto surgiu como um desafio: como mostrar o funcionamento de um motor de carro nas aulas de mecânica? Desde que o motor foi criado, há mais de 100 anos, nosso conhecimento era apenas imaginário. Tínhamos que supor como todas as peças se comportavam. Por isso desenvolvemos um único motor transparente do Brasil, atestado pela Confederação Nacional da Indústria. No ramo didático, é o primeiro no mundo. Com ele, podemos acompanhar o fenômeno da combustão e mostrar para o aluno o que é frente de chama, válvula, biela, pistão, casquilho móvel… tudo que antes era apenas imaginado, agora conseguimos visualizar, com aquisição de dados. O motor é interligado a um software que gera gráficos e permite estudos sobre aspectos como octnagem e eficiência de combustível, por exemplo. Esse motor é o carro-chefe da empresa e abriu as portas para um mix de produtos, como bancada de motores flex e com injeção eletrônica. A incubação foi importante não apenas para graduar a empresa para o mercado, mas também para me preparar. Tudo que é investido no projeto volta para o governo, em forma de empregos, impostos e produtos inovadores. A boa ideia custa caro. Temos muitas pessoas inteligentes, mas sem estrutura. A incubadora alia essas duas pontas e faz com que o Brasil gire a roda da tecnologia, para que daqui uns anos não fique mais atrás de países da Europa, por exemplo”, Giovani de Oliveira, departamento técnico da Intechno, uma das empresa incubadas.

Resultados

O Núcleo de Incubação tem dado muitos frutos.  Um dos exemplos foi o projeto desenvolvido com a Vilux, empresa que atua no mercado de iluminação LED. O projeto inicial era desenvolver uma luminária para áreas classificadas, que são espaços potencialmente explosivos, como plataformas de petróleo, distribuidoras de gás, refinarias de combustível. O produto saiu do papel e só aguarda certificação do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) para chegar às prateleiras. Além disso, deu origem a dois novos tipos de luminárias.

“Graças a essa parceria com o Ifes nosso projeto está avançando com muita celeridade, muito mais do imaginávamos a princípio”, comemora o diretor da Vilux, Edmann Doellinger. “Se tivéssemos que desenvolver fora da incubadora, seria muito difícil, especialmente por trabalhar com pesquisa e inovação em período de crise. Não teríamos capacidade de reunir os pesquisadores e a estrutura que o Ifes nos oferece, por um custo ínfimo, além da visibilidade que temos aqui. Abre muitas portas.”

Os alunos também têm o que festejar. Estudante do curso de Engenharia de Controle da Automação, Douglas Pimentel é estagiário da Vilux e participou de toda a pesquisa para o desenvolvimento dos produtos. A sinergia foi tanta que já recebeu a promessa da empresa de ser contratado assim que se formar.

“Cresci muito durante todo o processo, porque aprendi a lidar com a ‘vida real’. Na academia nós não temos muitas chances de aplicar o conhecimento. Ao acompanhar as pesquisas de desenvolvimento de um produto, vemos quantos fatores precisam ser analisados e que as soluções são inúmeras. Foi muito importante para minha formação”, avalia.

Rubens Carlos Cortes, da Zaruc

A Zaruc atua no ramo de telemetria e existe desde 1995. Nossa motivação para entrar no Núcleo de Incubação foi desenvolver uma solução para a medição de energia a distância que pudesse substituir uma tecnologia que já existia no mercado, mas que tinha um custo muito alto. Para quem é microempresário, desenvolver um novo produto é demorado e muitos custoso e nem sempre é possível, porque você não está capacitado em todas as áreas necessárias. Participando do projeto, podemos ter acesso à estrutura do Ifes e, mais importante, contar com a orientação científica dos pesquisadores para criar e testar o produto”, Rubens Côrtes, da empresa Zaruc.