Em Linhares, produtores do Movimento Sem Terra aprenderam novas técnicas de cultivo e de gestão com a ajuda de professores e alunos do Instituto Federal

 

Uma parceria entre o Campus Linhares e um assentamento do Movimente Sem Terra (MST), localizado na zona rural do município, oferece capacitação para os agricultores melhorarem o seu processo de cultivo, desde o plantio até o escoamento da produção, gerando mais renda para os trabalhadores. O curso “Gestão de Negócios em Organizações Associativas” foi dado aos produtores do assentamento Sezínio Fernandes, que reúne cerca de 130 famílias.

Anderlúcio recebe informações do professor Renato Miranda e das alunas Évilyn e Thacyane. Fotos: Alex Gouvêa – Estúdio Gazeta

A ideia do projeto nasceu em 2015 e contou com a participação de professores do  do curso técnico integrado em Administração. Foram abordadas questões de meio ambiente, finanças, marketing, entre outras. As aulas eram realizadas aos sábados na comunidade, que tem pouco mais de 2 mil hectares, sendo que mais da metade está em área de preservação permanente.

De acordo com o professor Renato Miranda, a proposta é ajudar na melhoria organizacional do assentamento e na distribuição da produção. “Quando você tem 100 agricultores produzindo de forma aleatória e separada, eles se tornam uma linha muito fraca na cadeia de suprimentos. Hoje, existe uma dificuldade de escoamento dos produtos. Os produtores unidos em forma de empresa ou associação acabam ganhando mais força”.

Filho de assentados que estiveram na primeira ocupação feita pelo MST no Espírito Santo, no município de São Mateus, em 1984, Atanásio Oliveira foi um dos primeiros agricultores a chegar no Sezínio Fernandes, em março de 2008, pouco depois da área, que era um grande latifúndio com pequena produção de gado, ser desapropriada.

Ele acredita que a parceria com o Ifes vai contribuir para o que o produtor passe a se tornar mais ativo em todas as fases da produção, desde o cultivo até a comercialização. “A participação do agricultor não pode ficar apenas no plantio. Ele tem que entender e participar de todo o processo. Estamos em um período de crise. Quando íamos vender na cidade, voltávamos com 70% do produto de volta. Se está complicado de vender determinada fruta, então vamos produzir suco, doces, etc. e vender um produto beneficiado”.

Morando há sete anos no assentamento, o agricultor Anderlúcio Agostini passou a ter mais noção de como administrar a propriedade que tem em parceria com o irmão. Eles cultivam café, coco, banana, pimenta do reino, feijão, milho, frutas, e criam porco e galinha utilizando os conceitos da agroecologia.

“Tínhamos uma visão curta de como aplicar os recursos. Após o curso, a gente consegue administrar a propriedade com mais facilidade. Aprendemos a calcular os gastos de insumos utilizados na lavoura com adubação, irrigação, analisar os períodos de plantio para apontar qual cultivo deu mais renda. Tínhamos pouca noção das questões ambientais, administrativas, tudo que envolvia dinheiro. Hoje sabemos da importância de criar uma marca, dar uma cara para o seu produto”, aponta o assentado.

Pesquisa vai analisar hábitos de consumo

A parceria com o Campus Linhares não vai ficar apenas na capacitação oferecida durante o curso. Na segunda fase do projeto será realizada uma pesquisa chamada “Hábitos de Consumo da População Urbana de Linhares quanto a produtos agroecológicos”. O levantamento conta com participação de 10 alunos bolsistas do Ifes e outros dois da Faculdade de Ensino Superior de Linhares (Faceli), de Linhares. O estudo vai analisar, junto aos moradores da cidade, o perfil de consumo deles, o quanto pagam e quais são os produtos agroecológicos que preferem comprar.

Para os estudantes do Ifes, o projeto de extensão acaba se tornando uma troca de experiência. A aluna Jhulia Polleze, 17 anos, mora em uma propriedade rural perto do assentamento e acompanha a história dos agricultores desde a chegada dos sem-terra, há nove anos.

“Eu tinha preconceito. Meu pai é dono de terra, cultiva café, banana e cacau, então, a gente sempre fica meio desconfiada com o movimento. Mas depois que entrei para o projeto comecei a ver que o movimento é muito diferente dessa imagem que as pessoas passam. Na verdade, eles têm muito o que nos ensinar sobre as técnicas de cultivo de subsistência e ecologicamente corretas que eles aplicam”, afirma a aluna do curso técnico em Administração.

Jordana Pacheco, 17, afirma que as pessoas não conhecem o real trabalho do MST. Assim como os colegas, ela vai participar da pesquisa para coletar dados sobre como a população urbana de Linhares enxerga o MST e como consomem os produtos do assentamento.

Fizemos uma pesquisa aprofundada sobre movimentos rurais como MST e o MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores). Vimos como era o estilo de vida que eles têm. Eles fazem rotação da cultura, o que faz com que o terreno fique mais fértil, usam leguminosas perto das plantações, e elas se auto adubam. Eles não apostam em monocultura. Vindo aqui passamos a ter esse conhecimento”, afirma Jordana.