Alunos desenvolveram sistema que ajuda a captar água da chuva, evita desperdício e, ainda,  reserva água para dias de seca

 

A falta de chuvas no norte do Espírito Santo tem dificuldade a vida dos agricultores e impactado diretamente na produção do café, principal produto cultivado na região. Nos últimos quatro anos choveu menos da metade da média histórica na região. Mas algumas propriedades seguem mantendo as lavouras e em alguns casos até com aumento de produção, graças aos projetos inovadores de irrigação sustentável promovidos em parceria com a Agrifes Jr., empresa júnior composta por alunos do curso de Agronomia do Campus Santa Teresa.

Roberto, Breno e Juliano participam de projeto de irrigação por gotejamento. Foto: Alex Gouvêa – Estúdio Gazeta

Os universitários têm contribuído para reduzir os impactos negativos da falta de água. Ao contratar a empresa júnior, o agricultor recebe a visita dos estudantes para a realização de uma análise da propriedade rural, observação do sistema de produção e disponibilidade hídrica. A partir disso, é feito um planejamento, como foi realizado na propriedade da família Roldi, no distrito de São Jacinto, em São Roque do Canaã, que recebeu um projeto de irrigação por gotejamento enterrado, pioneiro no Estado.

Esse projeto foi implantado em 2015, e ainda neste semestre do primeiro será feita a primeira colheita de café, solucionando um problema antigo da propriedade. “Compramos esse terreno há oito anos. Fomos criticados na época porque diziam que aqui não tinha água nem para hidratar um juriti (pássaro conhecido por seu pequeno tamanho). Pegamos áreas que estavam sem uso na propriedade para a instalação dos poços e hoje a fazenda consegue se estabelecer até durante a seca”, relembra Roberto Roldi, sócio do terreno.

Captação

O sistema de captação de água é integrado com caixas secas, que captam a água da chuva nas áreas mais altas do terreno. Dali, a água começa a infiltrar no solo, abastecendo o lençol freático e, consequentemente, enchem os poços localizados na parte baixa da propriedade. No caso da fazenda da família Roldi, são sete grandes piscinas. Em paralelo, as caixas secas também servem para segurar a sedimentação do solo nas partes altas da propriedade, estancando o escorrimento superficial.

O represamento da água garante o abastecimento da propriedade por um período de até oito meses de estiagem, como explica o presidente da Agrifes Jr., Breno De Angeli Vieira, estudante do 9º período de Agronomia no Campus Santa Teresa. “Esse tipo de irrigação é o melhor procedimento para terrenos com áreas íngremes e com grande ângulo de inclinação, segurando o sedimento que escorreria para baixo. Isso aumenta a taxa de infiltração no solo, eleva o nível do lençol freático e permite fazer a prática de irrigação por mais tempo”.

Apesar do cenário pluviométrico não ser dos melhores para os próximos meses, a propriedade vai  ampliar sua área de plantio, mesmo que ele troque o café para outro cultivo. “O sistema de irrigação que estamos implantando aqui é muito mais eficiente, pois economiza de 15 a 20% de um sistema convencional. Para uma região que tem problema de abastecimento, como é o caso da região de São Roque, isso faz muita diferença”, afirma Breno, ao explicar que uma propriedade que não fez esse tipo de investimento pode produzir até 60% a menos.

“Os meninos da Agrifes desenvolvem um projeto adequado para as suas necessidades. Agora eu não preciso ir em uma loja e pedir para fazer um projeto de irrigação,  já tenho o projeto pronto e chego pedindo o que preciso”, compara o cafeicultor Roberto Roldi.

O projeto de gotejo tem um custo menor de implantação, e a perda de água por evaporação cai em 30%, porque ela passa por baixo da terra. Além disso, apresenta algumas vantagens adicionais, como aplicar água e nutrientes diretamente nas raízes e reduzir as perdas por evaporação. “Para a gente, o problema não é o custo, mas a falta de água que a região sofre. Quando há um uso melhor da água, você garante um ganho de produtividade”, diz Juliano Roldi, também sócio do terreno.