Trata-se da Fábrica de Sabão Ecológico, ação que ainda promove a economia solidária na região do Rio Aribiri, no mesmo município

 

O Brasil produz mais de 60 milhões de toneladas de lixo urbano por ano.  Grande parte não é descartada corretamente e acaba atingindo solos, rios e oceanos, causando impacto ambiental. Um dos vilões é o óleo de fritura. Um litro de óleo pode contaminar 20 mil litros de água. As consequências: morte de espécies aquáticas e enchentes, causadas pelo entupimento das redes de esgoto das cidades.

Óleo passa por diversas fases até ser transformado em sabão. Fotos Tati Hauer -Estúdio Gazeta

Em Vila Velha, uma iniciativa do Instituto Verde Vida, em parceria com o Ifes e a Organização Não Governamental Movimento Vida Nova (Movive), tem ajudado – e muito – a minimizar os prejuízos causados pelo óleo residual de fritura. Trata-se da Fábrica de Sabão Ecológico, ação que ainda promove a economia solidária na região do Rio Aribiri, no mesmo município.

O projeto, que teve início em 2012, recolhe uma média de 9,5 toneladas de óleo residual de fritura por ano. Uma parte do material recolhido é vendida para empresas para transformação em biodiesel, outra é transformada em sabão na ONG.

“A ideia é transformar um resíduo perigoso para o meio ambiente em um produto vendável, que gere renda para a comunidade, principalmente a mais carente. Hoje, a produção está em cerca de 500 barras por mês. O que sobra, vira sabão ralado, que pode ser usado em tanquinho e em limpeza bruta, por exemplo. Nada é descartado”, explica o professor da instituição de ensino Mauro Cesar Dias, doutor em Química e responsável técnico do projeto.

O sabão, que tem essência de limão e ótima aceitação no mercado, é considerado ecológico, porque não possui adição de derivados do petróleo e fosfato. Em 2015, o projeto recebeu o Prêmio BNDES de Boas Práticas em Economia Solidária.

“De 2012 para cá, cerca de 60 pessoas da comunidade receberam treinamento por meio de oficinas, onde aprenderam sobre segurança do trabalho, química do sabão, economia solidária e conceitos de meio ambiente, por exemplo. Já os alunos do curso Técnico em Química e da Licenciatura em Química do Ifes atuam no controle de qualidade do sabão, com medição do pH e do nível soda, entre outros quesitos”, diz Mauro.

A economia solidária é que movimenta a coleta seletiva feita no Instituto Verde, com cerca de 60 famílias envolvidas no processo. Os catadores da comunidade levam os resíduos até a ONG, onde eles são medidos e têm seu valor convertido em Moeda Verde, que é usada na troca por alimentos comercializados no Supermercado Solidário, na própria ONG, e em alguns estabelecimentos comerciais parceiros.

“Cada litro de óleo de fritura vale 50 centavos para o catador. O valor que ele recebe em Moeda Verde pode ser trocado por alimento. O trabalhador pode escolher o que leva, sempre pelo preço de custo em nossa loja. É uma troca solidária, é cidadania”, explica o presidente do Instituto Verde Vida, João Manoel Dos Santos, 70 anos.

As famílias que participam do projeto comemoram. “Qualquer lugar que você apresente o sabão, ele é muito bem aceito. É uma coisa inacreditável, pensar que o óleo, depois de reciclado, ajuda a tirar o óleo de uma vasilha. É um projeto muito bonito. Além de estar nos ajudando, ajuda o meio ambiente também. É muito triste ver que os peixes já não estão vindo mais para se reproduzir no manguezal”, relata Sidineia Alves, 42 anos.

Adriana Auer, 47 anos, outra beneficiada pelo programa, também defende a iniciativa. “Esse projeto ajuda a muito a gente e é um trabalho maravilhoso, quando você pensa no que esse óleo que reaproveitamos poderia causar ao meio ambiente. É preciso destacar também o trabalho os catadores. Moro nas imediações do Rio Aribiri há mais de 40 anos. Via muito sacola, muita garrafa PET no rio. Hoje não se vê mais isso”, diz.