Inaugurado em 2010, Campus Piúma é reconhecido por oferecer cursos gratuitos de capacitação, além de ensino técnico e superior na área pesqueira

A pesca, uma das principais atividades econômicas do litoral capixaba, está cada dia mais profissional. E o Campus Piúma é referência na qualificação dos trabalhadores desta área.

Inaugurado em 2010, o campus já se tornou uma referência em um dos setores econômicos mais importantes do litoral capixaba. É o único do Brasil que trabalha de forma verticalizada com o eixo da Pesca, tendo cursos da área do ensino técnico integrado ao médio em Pesca e Aquicultura, e o superior em Engenharia de Pesca. Muito além das aulas, o campus também oferece curso de capacitação profissional de forma gratuita para pescadores artesanais.

Evan Halei diz que o curso mudou o trabalho da Colônia de Pescadores de Itapoã. Fotos Alex Gouvêa – Estúdio Gazeta

Com a expansão petrolífera houve uma demanda muito grande de capacitar os profissionais do setor pesqueiro, que passaram a atuar em atividades offshore (afastado da costa). Em 2012 foi firmado um acordo de cooperação técnica entre a Marinha, a Capitania dos Portos e os Institutos Federais localizados na costa do país e que tinham uma formação técnica em pesca. Com isso, alguns campi de Institutos Federais foram acreditados para ofertar o curso, até então oferecido apenas pela própria Marinha.

A primeira turma foi selecionada no fim do ano passado. A classe contou com 19 alunos, a maioria da colônia de pescadores de Itapoã, em Vila Velha. A carga de 112 horas de curso voltado para a categoria Pescador Profissional (POP) foi dividida em duas semanas de estudos, entre 22 de novembro a 9 de dezembro do ano passado.

Filho de pescador artesanal, Evan Halei Novaes dos Santos foi um dos participantes. Para ele, a capacitação revolucionou a maneira de trabalho dos profissionais da Colônia de Pescadores, principalmente com as aulas de conservação e manuseio de pescado, primeiros socorros, meio ambiente, nomenclatura técnica e mecânica de motores com propulsão a diesel.

O curso deu base para o pescador artesanal, que é o que fazemos aqui em Itapoã, passar a atuar com a pesca profissional, embarcado em alto-mar. Somente em determinadas épocas do ano conseguimos obter um volume satisfatório de pescado. Com esse curso, ganhamos uma nova opção de trabalho”, afirmou Halei.

Para os pescadores de Itapoã, o curso veio em boa hora. Tradicionalmente, os passeios realizados nas ilhas de Pituã e Itatiaia, na orla de Vila Velha, sempre foram realizados pelos pescadores mais antigos da região. No entanto, com a maior divulgação e procura pela atividade, a Capitania dos Portos passou a impor uma capacitação profissional para esses barqueiros que estavam trabalhando com essa renda extra fora da pesca.

“Tem que ter uma formação profissional, já que a vida das pessoas está nas suas mãos para fazer esse transporte em nossas embarcações artesanais”, explica Halei, que lembra ainda que a visitação turística se tornou um importante complemento de renda para os pescadores em meio à crise de pescado.

Professor Victor Hugo

Professor do Campus Piúma e responsável pelo curso, o engenheiro de pesca Victor Hugo da Silva diz que a receptividade dos pescadores em adquirir novas técnicas foi um diferencial a favor do projeto. Para ele, as aulas de segurança no mar, inovações de tecnologias pesqueiras e as técnicas de beneficiamento do produto embarcado para chegar um produto de melhor qualidade para o consumo final foram as que mais trouxeram inovações ao trabalho dos pescadores, que também tiveram aulas de legislação trabalhista.

Para o professor, mais do que uma aula, o curso foi uma troca de experiências. “Ninguém estava ali para ensinar o pescador a pescar. Nós também aprendemos com os alunos. Foi uma troca de conhecimentos, ficou claro para todos que não existe técnica superior ou inferior. Os pescadores artesanais tinham o conhecimento empírico, passado de pai para filho nas comunidades pesqueiras. Eles sabiam como manusear o pescado, mas as vezes não possuíam a técnica para evitar perdas ou manter a qualidade do produto até chegar ao consumidor final”.

Após o sucesso da primeira turma, a previsão é ofertar mais 140 vagas durante o ano em novas turmas voltados para o curso de Pescadores Profissionais (POP).

“A agricultura brasileira atingiu esse nível de desenvolvimento porque teve uma profissionalização há um tempo, com a formação de engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas. A pesca também precisa ter essa profissionalização. Precisamos ter engenheiros de pesca, técnico em aquicultura e pesca para trabalhar nessa cadeia produtiva. Precisamos profissionalizar e capacitar esse setor que gera bilhões de dólares em todo mundo”, afirma o professor Victor Hugo.