Projeto do Campus Vitória fez o aprendizado da Matemática ficar muito mais fácil. A metodologia também passou a ser aplicada para alunos do ensino fundamental da rede pública

Embora seja indispensável para entendermos o mundo que nos cerca, a Matemática costuma ser vista como um bicho de sete cabeças por muitos estudantes. Esse era o caso de dois alunos do curso técnico em Eletrotécnica integrado ao ensino médio do Campus Vitória. No entanto, em vez de se deixarem derrotar, eles transformaram a própria dificuldade em inovação no ensino da disciplina para alunos da rede pública. A iniciativa rendeu até reconhecimento internacional.

Vanessa e Vitor participam da oficina “O Mundo Mágico de Escher”. Foto: Wilton Prata – Estúdio Gazeta

Os amigos Vitor Siqueira e Vanessa dos Santos sentiram um baque quando ingressaram no 1º ano do Ifes. “Eu era uma boa aluna antes, mas estava acostumada a gravar um conteúdo e fazer a prova. Já aqui no Ifes, os alunos são desafiados a pensar, a entender e construir o seu próprio conhecimento”, lembra Vanessa. O mesmo aconteceu com Vitor. Mesmo medalhista em Olimpíadas de Matemática em sua cidade natal, Mutum (MG), ele lutou para acompanhar o ritmo do Ifes.

Tudo começou a mudar quando os dois participaram da oficina “O Mundo Mágico de Escher: Questões sobre a Pavimentação do Plano”, criada por três professores da disciplina, que perceberam um grande potencial para a Matemática nos alunos de ensino médio da instituição.

“Sempre gostei de relacionar Matemática com outras áreas, especialmente as artes. Então, com a oficina, quis mostrar que a disciplina permeia outros tipos de conhecimento e apresentar as relações entre eles. Aqui no Ifes sempre oferecemos outras oportunidades além da sala de aula”, explica a professora Claudia Araújo, uma das idealizadoras da oficina.

A partir das obras de Escher, os alunos tiveram contato com conceitos matemáticos de forma lúdica. Vitor e Vanessa viram suas notas melhorarem e o bicho de sete cabeças perder a aparência assustadora. “Escher deixou alguns métodos que usava para confeccionar as obras, e esses métodos têm bastante conceitos matemáticos envolvidos. Aproveitamos para explorar conteúdos de geometria relacionados à obra dele, como reflexão, translação e rotação”, recorda Claudia.

Empolgados com o salto no aprendizado, os alunos resolveram transformar a experiência em projeto: por que não pensar em alternativas lúdicas para o ensino da Matemática no ensino fundamental? Assim, ministraram a mesma oficina no antigo colégio de Vanessa, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Alvimar Silva, localizada no bairro Santo Antônio, em Vitória.

Apresentamos a oficina para estudantes do 8º e 9º ano do ensino fundamental, abordando temas como ângulo, polígono, vetores e congruência, que teoricamente eles dominariam, porque já tinham passado por eles. Mas percebemos que eles tinham muita, muita dificuldade. Após a oficina, sentimos que eles entenderam bem melhor, porque viram os conteúdos contextualizados, de forma menos abstrata. Eles se sentiram animados até para prestar o processo seletivo do Ifes, porque queriam aprender mais”, comemora Vanessa.

Mas a iniciativa dos alunos não terminou por aí. “Inicialmente, tínhamos a ideia de trabalhar Escher em projetos sociais, mas descobrimos que ele poderia ser uma pesquisa científica”, lembra Vitor. O estalo veio com a descoberta da plataforma Cientista Beta, que tem o objetivo de conectar pessoas que buscam realizar algum projeto científico a mentores, que são estudantes de universidades ou pessoas formadas.

Eles passaram no processo seletivo e participaram da capacitação oferecida pela plataforma, onde aprenderam sobre a metodologia científica. “Passamos o ano passado inteiro estudanto, reformulando nosso projeto. Vimos do que muito mais do que um trabalho de cunho social, ele poderia ser científico, porque fazer ciência não é apenas na área de tecnologia, coisa de gênio. Ciência é enxergar um problema e querer solucioná-lo, independentemente da área”, resume Vitor. “Isso ajudou muito a vencer o preconceito entre área de Exatas e de Humanas. Depois que participei da oficina e do Cientista Beta, percebi que uma pessoa completa é aquela que enxerga todas as áreas, e elas não estão separadas.”

Em vez de apenas ensinar conceitos de Escher nas escolas, agora eles ampliam o projeto para, por meio da obra de Escher, ajudar a desenvolver uma forma mais ampla de ensinar a matemática, não apenas decorando  fórmulas, mas com aplicações no dia a dia.

“A partir do momento em que identificamos um problema, que no nosso caso era o fato de que nossas escolas têm um problema seríssimo de didática, e passamos a contribuir positivamente para isso, nós estávamos fazendo ciência”, completa Vanessa.

Os próximos passos dos alunos é lançar um site com vídeos, para que os professores possam utilizar o material na sala de aula. Em meio a tudo isso, eles ainda arranjam tempo para participar de Olimpíadas de Matemática, integrar o Coral do Ifes e frequentar um clube de Astronomia, área em que Vitor quer se formar.

Os alunos foram selecionados para integrar a delegação brasileira no 34th International Youth Science Meeting, evento que é promovido pela Associação Juvenil de Ciências de Portugal e conta com apoio da Unesco.

Vitor e a Vanessa são dois dos vários alunos que temos aqui no Ifes de Vitória que buscam sempre mais do que as atividades da sala de aula. A oficina surgiu justamente por isso. Os alunos têm espírito científico, e queremos estimular isso. Temos tentado com essas iniciativas colocar o aluno não como receptor, mas como produtor de conhecimento, ao lado do professor, o que tem sido muito gratificante. Temos vários jovens cientistas já no ensino médio. São alunos com potencial incrível e que só precisam de espaço. Nossas atividades têm sido estimulantes porque tem atingido todos os tipos de aluno, não apenas os “CDFs”, têm tornado todos mais próximos do conhecimento”,  professora Claudia Araújo, uma das idealizadoras da oficina “O Mundo Mágico de Escher: Questões sobre a Pavimentação do Plano”

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Quem foi Escher?


O artista gráfico Maurits Cornelis Escher nasceu em 1898 na Holanda e entrou para a história pelo uso de transformações geométricas (isometrias) em suas obras. Por meio de xilogravuras e litografias, por exemplo, Escher brincava com a representação do espaço tridimensional em um suporte bidimensional, o papel, criando construções impossíveis, explorações do infinito e metamorfoses. A influência do cálculo em sua obra é tanta que, mesmo sem treinamento na área, é considerado um matemático geométrico. Morreu em 1972, aos 74 anos.