Graças a qualificação no Campus Aracruz, comunidade indígena  vai produzir e comercializar aroeira, produto de alto valor para exportação

Uma planta nativa da região vai se tornar a maior fonte de renda de uma das mais antigas tribos indígenas ainda existentes na cidade de Aracruz. Graças a um curso de beneficiamento extrativista oferecido pelo Ifes no ano passado, a comunidade de Areal passou a apostar no cultivo da aroeira.

Com a ajuda do Ifes, comunidade indígena plantou cerca de um hectare de aroeira em Aracruz. Fotos: Alex Gouvêa – Estúdio Gazeta

Com cerca de 100 toneladas por ano, Aracruz é o maior produtor do Estado de aroeira, que tem grande valor para exportação, já que a semente é usada como condimento na culinária europeia, em especial a francesa, alemã e holandesa. Os indígenas solicitaram um curso junto ao Campus Aracruz, que fez a seleção de professores com parceiros como o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Prefeitura de Aracruz e a iniciativa privada.

Durante a capacitação, os membros da tribo aprenderam a fazer a poda, a colheita, a armazenagem e todos os cuidados necessários. Junto com o curso, foi realizado o plantio de cerca de um hectare em dezembro do ano passado. A primeira colheita é aguardada para maio e junho de 2018. Foram introduzidas 300 plantas de aroeira e outras 150 mudas de outras espécies. Até então, a principal fonte de renda da tribo eram produtos como mandioca, milho e feijão, além da venda de mel e óleo de coco.

A aroeira era perdida, virava alimento de passarinho. A gente só usava como remédio. Não sabia que havia um mercado para dar dinheiro com ela. Então surgiram interessados nas sementes e nasceu a ideia do cultivo. Mas faltava para a gente a técnica para poder fazer o plantio. A aroeira é mais resistente que o café e está mais bem adaptada à região. Plantando em época de chuva, ela pega e resiste o resto do ano”, afirma o cacique Jonas do Rosário, 70 anos, nascido e criado na comunidade, composta por 50 famílias e cerca de 190 pessoas.

Esposa do líder da tribo, Zilma Maria Vicente, soube do cultivo da aroeira durante uma reunião da comissão de caciques de Aracruz. Outras tribos de Aracruz já obtinham renda com o cultivo. “Conhecíamos a aroeira, mas achávamos no mato e fazíamos chá medicinal. Não tínhamos muito conhecimento da renda que poderia gerar. O curso foi importante para melhorar o beneficiamento da aroeira, trazendo mais recursos para a aldeia”, afirma.

Especialista em agricultura familiar em povos tradicionais, o engenheiro agrônomo do Incaper Luiz Carlos Pereira do Sacramento foi um dos professores do curso e explicou que a planta sempre foi cultivada em Aracruz, porém de forma espaçada e em regiões afastadas. “Passamos por três anos críticos de seca, e a aroeira foi uma das únicas lavouras que resistiram bem. Isso garante bons rendimentos mesmo na seca. Não existe dificuldade no seu cultivo, ela ocorre naturalmente nessa região. Só era preciso fazer uma organização do plantio”, explica.

Com a aroeira, a tribo vai conquistar uma renda nunca antes obtida em outros cultivos. “Análises de mercado apontam que a produção dará um rendimento de R$ 250 mil neste primeiro plantio para a tribo. A ideia é fomentar a união das diversas aldeias produtoras em uma associação cooperativista”, explica a Zâmora Cristina, coordenadora de Extensão do Campus Aracruz .

Entre os 27 alunos do curso, Pedro Ribeiro, 74 anos, foi o mais velho a participar de uma capacitação na história do Campus Aracruz. Com disposição para trabalhar na lavoura, ele acha importante continuar em busca de conhecimento. “Aprendi a plantar, fazer a poda e cuidar da aroeira. Aos poucos vou aprendendo a tirar o óleo. Um vai ensinando para o outro, trocando experiências. Isso é importante e cada vez estou aprendendo alguma coisa”, afirma.