Projeto garante atividade lúdica para deficientes visuais e comunidade em geral de Colatina

Uma pracinha em forma de labirinto garante ao Campus Itapina a presença de visitantes especiais. Inaugurado em 2014, o Jardim Sensorial é um projeto de extensão voltado para garantir uma atividade lúdica e inclusiva para deficientes visuais e comunidade em geral da cidade.

Jardim sensorial no Campus Itapina. Fotos: Alex Gouvêa – Estúdio Gazeta

O formato de labirinto serve para aproveitar ao máximo o espaço e comportar o maior número de plantas. Atualmente, são aproximadamente 45 espécies, que são trocadas respeitando suas características sazonais, em uma área de 325 metros quadrados e 70 metros de percurso. Além das plantas, o espaço conta com placas com os nomes e informações de cada espécie em português e braile, e também um piso especial com trechos feitos de diferentes materiais, como brita, areia, grama e madeira.

A ideia de criação do jardim surgiu de uma parceria com a Associação Colatinense de e Para as Pessoas com Deficiência Visual (ACDV), que mantém visitas constantes ao Campus Itapina. O projeto funciona como extensão para estudantes dos cursos superiores de Agronomia, Licenciatura em Ciências Agrárias e do técnico em Agricultura.

Professor Marinaldo é o idealizador do projeto

De acordo com o criador do projeto, o professor aposentado do curso de Agronomia Marinaldo Zanotelli, o papel de um jardim sensorial transcende o espaço terapêutico e se ancora também na inclusão social para todas as pessoas que apresentam algum tipo de limitação.

“No início não tinha muita noção do que era um jardim sensorial. Após uma conversa com a associação comecei a pesquisar e a idealizar o projeto. Em eventos, ouvi depoimento de cegos dizendo que finalmente fizeram alguma coisa para eles. Aqui no jardim,  o visitante pode provar, testar, tocar e sentir as plantas, porque é um jardim diferenciado, onde a pessoa pode interagir com o espaço”, explica.

Uma das vantagens do projeto é desenvolver os chamados “sentidos adormecidos”. Mesmo uma pessoa que enxerga, quando coloca a venda nos olhos, passa a desenvolver sentidos que a visão acaba suprindo. A estudante de Agronomia Hullyana Ferraz de Sousa é uma das monitoras do projeto e ajuda como guia da visitação e na manutenção do jardim.

“Tivemos casos de pessoas que enxergam e que, ao ter os olhos vendados e entrar no jardim, notaram que as plantas eram mais altas que elas imaginavam, porque quando ela chegou, não fez uma observação mais detalhada com todos os sentidos”.

Luzia Helena diz que o local traz uma experiência única para ela

O projeto Jardim Sensorial já foi apresentado em feiras escolares e de ciências e tecnologia, por meio de uma versão itinerante, composta de 20 espécies. “Dando condições de trabalho, todos têm possibilidade de se desenvolver. Falamos muito em acessibilidade, mas as atitudes efetivas não são tomadas de acordo, ou quando são feitas, fazem de modo que não se respeita a lei. A nossa instituição, como uma escola pública, não pode ficar alheia aos acontecimentos”, opina Marinaldo.

Experiência única

A escolha das espécies plantadas no jardim atende a critérios e características próprias, e que se destacam por disparar sentidos como tato, olfato e paladar. Segundo o professor Marinaldo, foram selecionadas plantas com cheiro, medicinais, conhecidas e hortaliças.

Meryule Damas aprova a iniciativa

“Começamos pelo manjericão, uma planta com cheiro característico e fácil de se identificar. Do lado vem o alecrim, que também tem cheiro bom e a pessoa vai identificando. Depois vêm as plantas medicinais, com floras mais ásperas, como a babosa e citronela, que possuem espinho e têm que ser manuseadas com cuidado, ou plantas ornamentais, que se destacam pela textura das floras”, explica o professor.
Cega desde o nascimento, Meryule Damas, de 18 anos, mora em Colatina e já conhece o Jardim Sensorial do Campus Itapina. Porém, com a troca constante das espécies, cada visita se torna uma experiência única.

“Além de estarmos próximos a natureza, temos a oportunidade de sentir as plantas. Na maioria dos lugares que nós vamos, existem avisos proibindo que você toque as plantas. Mas para nós isso é muito ruim, pois utilizamos as mãos para conhecer as plantas. Essa é uma iniciativa maravilhosa e inclusiva. Podemos aprender entre as diferenças e particularidades de cada planta, os cheiros diferentes e para que serve cada uma delas”, explica a jovem.

Professora da ACDV, Grasiele Merlo Bueno faz visitas recorrentes com seus alunos no Campus  Itapina. Ela afirma que projetos como o jardim ajudam no desenvolvimento das pessoas com necessidades especiais, não só os visuais, mas também os físicos e mentais, que sofrem com um cotidiano muito fechado e limitado pelo fato de a comunidade não dar essa abertura a eles em atividades sociais.

“Não conheço nenhum projeto parecido no qual o deficiente pode ter esse tipo de contato. Os sentidos que aguçam seu o olfato, paladar e principalmente tato. Muitos já nasceram com a deficiência e estão tendo o prazer de conhecer essas plantas que nunca tiveram oportunidade”.