Iniciativa chamada de Armazém Cultural visa trabalhar os conteúdos das disciplinas por meio de ações lúdicas, como a criação de aplicativos e combate ao mosquito da dengue

Uma iniciativa inovadora do Ifes tem revolucionado o aprendizado dos alunos do curso integrado de técnico em Logística no Campus Viana. Como os estudantes passam cerca de sete horas por dia na instituição, a ideia do Projeto Armazém Cultural é trabalhar os conteúdos das disciplinas por meio de ações lúdicas, mas nem por isso menos complexas, como criar aplicativos para celular e ajudar a combater o mosquito da dengue.

Coordenadora do Armazém Cultural, Adriana da Costa Barbosa acompanha todos os projetos. Fotos: Tati Hauer – Estúdio Gazeta

De quebra, os projetos dos alunos ajudam a desenvolver competências de negociação, convivência em grupo e formação sociopolítica. “Pensamos em uma forma nova de ensino, para que não ficasse muito maçante para eles, só com atividades em sala de aula. Discutimos temas transversais, que envolvem diferentes debates em cada disciplina, como meio ambiente sustentabilidade”, explica a coordenadora do Armazém Cultural, a professora de Tecnologia da Informação aplicada à Logística Adriana da Costa Barbosa.

O programa teve início em 2016, primeiro ano em que o campus recebeu alunos do técnico em Logística integrado ao ensino médio, e segue em 2017 ainda mais estruturado. Agora, os alunos do 2º ano montam sua grade com três projetos de seu interesse, um por dia. Os outros dois dias da semana são dedicados aos estudos e aos encontros do Projeto Integrador, espaço em que eles têm contato com tudo que está sendo produzido no campus.

Os projetos selecionados neste ano foram propostos pelos próprios estudantes. Na disciplina de Química, eles pesquisam e debatem como os produtos são feitos, tudo pelo viés da ciência. Na aula de Música, aprendem não só a tocar instrumentos, mas estudam sobre a música brasileira, qualidade sonora e letras. Em Geografia o debate gira em torno das drogas e de como a sociedade encara esse problema. Em Física o foco é a teoria e a prática da robótica. Isso só para citar alguns projetos, que ainda incluem as disciplinas de Artes, Português, Matemática, História e Educação Física, entre outras.

“Tentamos sempre integrar as ações com assuntos do cotidiano. Ao final do processo, a intenção é convidar a família e a comunidade para a apresentação dos projetos desenvolvidos, porque o nível é muito bom. É muito gratificante, e eles ficam muito orgulhosos do resultado”, conta Adriana.

Além de coordenadora, a professora é também a responsável pelo projeto de criação de aplicativos. Para isso, ela utiliza o ambiente de programação gratuito App Inventor, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), criado originalmente pela Google. O objetivo não é formar programadores, mas potencializar o raciocínio lógico.

Em apenas três semanas, eles já criaram apps para desenhar na tela e calcular equações de primeiro e segundo graus. A ideia é desenvolver um aplicativo por semana. “Os alunos se mostram muito interessados em criar seus aplicativos, mas percebem que para isso eles precisam de matemática, entendem que, na verdade, a disciplina é fundamental”, conta Adriana. Com isso, outro objetivo está sendo cumprido, que é diminuir as dependências em Matemática, Física e Química.

Unidos contra a dengue

A realidade do Campus Viana, inaugurado recentemente, motivou a criação de alguns projetos, entre eles na área de Biologia. Como o local fica em meio a uma vegetação densa, o campus sofre com um sério problema de mosquitos, e isso se torna especialmente preocupante em meio a uma epidemia de doenças como dengue, zika e chikungunya.

O que seria melhor do que envolver os alunos no universo da pesquisa com a busca de soluções para um problema tão real e tão próximo a eles? Assim surgiu a ideia do professor Carlos Augusto Chamoun para um estudo sobre a eficácia das armadilhas caseiras para o controle da proliferação do Aedes aegypti.

As tais armadilhas para atrair as fêmeas da espécie já existem, mas não há nenhum estudo técnico sobre o tema. “Alguns especialistas afirmam que ela é eficiente, mas não existem pesquisas, não há dados”, diz Chamoun. Para dar corpo ao projeto, os professores das disciplinas de Física, História e Estatística também foram envolvidos e vão trabalhar o tema em suas áreas de atuação.

“A pesquisa não abarca apenas a instalação das armadilhas, mas também envolve aspectos socioeconômicos, como quais são os bairros mais afetados e os motivos para tanto, até chegar ao estudo epidemiológico de controle”, explica Chamoun.

A primeira etapa foi ensinar os alunos a confeccionar as armadilhas, que utilizam materiais baratos, como garrafa pet, tule e material orgânico para servir de isca. Em breve, elas serão instaladas no campus, em locais com diferentes características que simulem ambientes de proliferação, ao lado de potes com água comuns. A partir de então, os alunos vão monitorar se a postura dos ovos ocorre em maior quantidade nas armadilhas do que nos potes.

A Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) reconheceu a importância do estudo e aprovou o projeto para o recebimento de verba para a pesquisa. Com isso, 10 alunos têm bolsas de R$ 100, cada um, e outros dois universitários recebem R$ 400 por mês para atuar como monitores.